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Aqui escrevo uma carta.

Uma carta àqueles que sofreram,

Que sorriram,

Que perderam entes queridos,

Que choraram,

Que vibraram,

Que amaram.

Uma carta àqueles que sentiram a esperança como filete de água caindo em baldes profundos demais; e que pensaram nos sonhos como algo impossível de transbordar à realidade. Uma carta àqueles que experimentaram a alegria como gotícula em deserto extenso, e por isso sabem que há valor no sorriso imprevisível, no amor pequeno que vai se alargando no tempo contínuo e na felicidade, que nunca chega pronta, mas porta sempre o traje fino da paciência.

Escrevo esta carta para lembrá-los de que nenhum mar faz movimento sozinho. É necessário ter a força dos ventos para formar as ondas. É necessário ter a força dos sonhos. É necessário ter a esperança, que mesmo enfraquecida pelos dias, guarda em si a potência do amanhã.

2021 foi um ano difícil, sabemos. Por vezes, os dias se demoraram nas sequências de acontecimentos ruins; e o medo, a tristeza e a solidão se revelaram sentimentos frequentes. No entanto, o que a vida quer da gente, como diz Guimarães Rosa, é coragem. Essa vida que, em seu correr, “embrulha tudo. (…). esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta.  Essa vida imprevisível, tanto quanto são imprevisíveis as alegrias novas que chegam.

Desejamos a vocês que vivam o hoje, mas sem perder a utopia, sem emudecer a voz da esperança, mesmo que ela se revele fraca e inaudível. É de futuro que tecemos nosso presente. E, parafraseando Derrida, desejamos que seu 2022 chegue na expectativa de um caminho aberto para a vida e para a coragem. Afinal, e a um futuro aberto e cheio de novas esperanças.

“Se no presente não há amigos [e alegrias desejadas], façamos então que os haja daqui em diante, amigos dessa amizade soberana e senhora. É a esses futuros que apelo, respondam-me, essa é a nossa responsabilidade. A amizade e as alegrias não são coisas dadas somente no presente, elas fazem parte da experiência da espera, da promessa ou do compromisso. Seu discurso é o da oração, ele inaugura, não constata nada, não se contenta com o que é, se coloca no lugar onde uma responsabilidade se abre ao futuro”