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Reflexão e emoção marcam o encontro com o ator Lázaro Ramos em “Memórias da Minha Pele”

Emocionante. Essa é a palavra que descreve cada minuto do encontro entre o ator Lázaro Ramos e o Ícone Colégio e Curso durante a tarde do dia quatro de setembro. O evento Memórias da Minha Pele, o qual reuniu 450 pessoas na unidade Pechincha, faz parte do projeto interdisciplinar Diga Não ao Racismo que acontece desde fevereiro deste ano.
O que estava previsto para ser uma palestra acerca do racismo e dos assuntos contidos em seu mais novo livro “Na Minha Pele” da Editora Companhia das Letras, acabou se tornando um grande debate envolvendo perguntas e respostas sobre carreira, racismo, panorama político e perspectivas para um mundo melhor.

Durante a abertura do evento, o coordenador do projeto, Professor Vagner Lima, relembrou a tragédia do Museu Nacional e afirmou o quão marcante seria o presente momento. “Mesmo com a tristeza que ainda habita nosso coração por conta do incêndio que destruiu o Museu Nacional, nós estamos aqui hoje fazendo história; mesmo que o nosso país ainda não tenha aprendido a valorizar a sua”, conclui.
Ao dar início a esse momento, alunos e alunas da unidade Taquara (primeiro ano do ensino médio) realizaram uma dança africana, remetendo a uma saudação ao rei africano. Guilherme Rodrigues, Giovana Costa, Maria Eduarda Rodrigues, Thais Helena e Itamar Jorge deram vida às raízes africanas a cada movimento. Em seguida, foi a vez da apresentação elaborada pelas alunas Helena Cristina, Aline Lins e Ana Luiza Passos (primeiro ano do ensino médio) da unidade Pechincha. Sob os ritmos de Formation e This is America, as alunas relembraram as lutas do povo negro e demais situações enfrentadas antiga e atualmente pelo mesmo.
E não parou por aí. A última apresentação teve como um dos principais objetivos causar reflexões. O jogral, que antigamente era a forma como as classes mais humildes divertiam o público, causou também lágrimas, impacto e o sentimento de luta. Edson Morais, Julia Correia, Anna Isabelle, Gabriela Rodrigues e Ana Beatriz, autora do poema, prenderam a atenção de todos do início ao fim, aos brados de “resistência é o nosso nome!”.
Emocionada, a estudante Anna Isabelle (16) afirma que através do projeto e com a ajuda da sua amiga Ana Beatriz, conseguiu se reconhecer como negra. “Sempre disseram que eu era moreninha, sempre tentava esconder a minha verdadeira identidade, até mesmo da minha família. Vendo agora o que as pessoas passam, o movimento em si, esse sentimento de igualdade, de luta, eu vejo que no fundo todos fazem parte disso. É maravilhoso você reconhecer o seu passado e acho que ninguém deveria fugir disso. Eu sinto que estava falando com todos os que sofriam e eu queria agradecer ao Ícone por essa oportunidade e à Bia, incrível finalmente poder lutar”, conta.
Autora do poema, a Ana Beatriz (15), conta o que estava sentindo no momento em que escreveu cada palavra. “É um sentimento muito grande de mudança. A gente vive em uma geração que agora tem voz e eu acho que a forma que eu escolhi de canalizar essa angústia foi a poesia. Por conta da minha idade não posso fazer coisas que outros militantes do movimento negro fazem, mas conscientizar e falar sobre isso nos momentos em que eu tenho espaço é essencial. Espero que meu poema tenha causado incômodo e esperança. A mensagem que eu quero passar é de resistência”, conclui.

Após as apresentações artísticas, a secretária Lilian Karen proferiu palavras emocionantes acerca da necessidade do debate sobre o racismo e o quão é maléfico para a sociedade. “Infelizmente a violência do racismo é estrutural e estruturante. Está presente na forma de pensar e agir, presente no mercado ao renegar aos negros oportunidade de trabalho; presente na mídia que ainda tem dificuldade de representar a pluralidade das cores e cabelos do brasil; nas novelas que ainda colocam o negro de forma caricata e muitas vezes violenta. Gostaria de abrir um parêntese aqui e agradecer muito aos meus diretores por não ter enxergado a cor da minha pele, mas por ter a loucura de colocar uma secretaria negra, resistente e reexistente na secretaria de uma escola particular, muito obrigada”, afirmou emocionada.
Ao dar início à sua fala, Lázaro Ramos demonstrou estar surpreso e emocionado com as três apresentações que o antecederam. “Eu acho que vocês hoje provaram que essa conversa que se inicia no livro já está em outro estágio. Quando eu chego aqui e vejo essas apresentações que foram feitas, a dança africana, a apresentação tendo This is America como referência, a poesia que é algo que na época em que eu estava na escola ninguém teria coragem de escrever e apresentar; tudo isso era silenciado. Vocês já estão construindo alguma coisa, já estão fazendo e se posicionando”, conclui o ator. A partir de então, alunos e alunas iniciaram uma série de perguntas, as quais o ator prometeu não dar uma resposta fácil, porém, teriam informações suficientes para refletir e pensar em novas soluções para a ferida ainda aberta do racismo.
Ao conversar com o coordenador do projeto, Vagner explica como surgiu a ideia do projeto interdisciplinar. “Eu cheguei no Ícone esse ano e gosto muito desses temas transversais, os que perpassam todas as disciplinas. Pensando nisso, apresentei à direção a proposta de trabalhar em 2018 com o racismo, até porque tem algumas datas simbólicas como os 50 anos da morte do Martin Luther King, 100 anos do Nelson Mandela, e 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. A partir disso passamos o ano inteiro falando sobre racismo nas suas mais variadas formas e nas mais variadas disciplinas”, conta.
O projeto Diga Não ao Racismo teve início no dia sete de fevereiro e terminará em novembro com a Semana da Consciência Negra envolvendo uma mega exposição com trabalhos como o livro que conta a história de 15 heroínas negras brasileiras que será apresentado em um grande varal com diversos cordéis; apresentações artísticas e o jogral.

O projeto é subdividido em micro e macro ações: as pequenas, realizadas dentro da própria disciplina, e as maiores como a exposição voltada para o dia internacional da mulher com negras que representaram algo pra luta contra o racismo; a reescritura de I Have a Dream voltado para a realidade de alunos e alunas, dentre outras. “O nosso maior objetivo é conscientizar, pois para muita gente o racismo não existe. A gente vem provando para os alunos que existe sim e que não é velado como achamos que seja, pelo contrário, é nítido. Então trouxemos o Lázaro Ramos que afirma ‘eu fui vítima e ainda sou vítima de racismo’, sendo assim a prova a qual a gente precisa para embasar nosso discurso. Todo o projeto gira em torno da conscientização”, explica o coordenador.
Da necessidade da reflexão e do reconhecimento de que o racismo existe, nasceu o projeto multidisciplinar, uma vez que atualmente não é tão fácil encontrar espaços que se predispõem a discutir isso e o Ícone está alinhando o conteúdo a essa discussão.
Confira abaixo a entrevista exclusiva do Colégio Ícone com o ator Lázaro Ramos:

Quais são os objetivos da palestra e do livro?
Lázaro: Eu quero continuar a conversa que se inicia nos livros. Tudo o que eu tenho escrito até então é para falar sobre identidade, preconceito, mas nunca de uma forma em que as respostas são fáceis ou estão prontas. Eu acho que esse assunto é tão importante que a gente precisa conversar sobre ele e com o máximo de pessoas possível. Vir a uma escola onde é justamente o lugar para a gente buscar respostas, produzir novas narrativas é o ideal.

O projeto interdisciplinar Diga Não ao Racismo, envolve diversas ações e a sua palestra é uma delas. O que levou você a vir até aqui e conversar sobre isso com estudantes?
Quando a gente fala sobre preconceito, há muitos mitos e frases feitas se perpetuando. O fato de eu ter escrito esse livro que tem tido uma boa aceitação, ter um trabalho como ator que faz com que o coração das pessoas já estejam um pouco aberto e receba esse discurso de uma maneira diferente, faz com que a gente possa dialogar sobre o assunto sem a frase feita e sem achar que a resposta está pronta. Eu acredito profundamente que só vamos conseguir melhorar essa situação das discriminações do nosso país quando a gente conversar de verdade sobre isso e não quando a gente ficar vomitando verdades, apontando dedos pra lugares sem a gente se sentir como parte do problema e da solução.

De que forma você espera que o seu livro e o evento possam contribuir para a conscientização acerca do combate ao racismo?
Eu espero que mais dúvidas apareçam. Eu acho isso importante. Poucas coisas eu dou respostas muito definidas ou dou opiniões que sejam a grande verdade. Eu sempre provoco muito pois a gente tem que começar a ter dúvida, repensar e fazer com que eles pensem em outras soluções, pois as soluções das gerações mais antigas estão um pouco ultrapassadas e a gente precisa provocar novas reflexões.

Foto do autor e escritor, Lázaro Ramos, palestrando no Ícone Colégio e Curso

#Ensinoquepermanece